“Você acha que pode determinar livremente suas próprias ações?” 

Wilhelm Reich:

“…Longe disso: a sua ação consciente é apenas uma gota na superfície de um mar de processos inconscientes, do qual você nada pode saber – e sobre o qual, na verdade, tem medo de saber algo. Você se sente orgulhoso da “individualidade da sua personalidade” e da “abertura da sua mente”? 

O que é isso? Na verdade, você é apenas o brinquedo dos seus instintos, que faz com você tudo o que bem entende, isso, não há dúvida, ofende intensamente a sua vaidade! 

Você ainda crê que a Terra, um entre milhões de planetas, é o único que permite a vida.  Há uma realidade psíquica que se estende muito além da sua mente consciente. Aquele que se afastou do caminho comum se tornou facilmente um Peer Gynt, um visionário, um paciente mental. Não é compreendido.  As pessoas riem dele quando estão fracas.  Tente-o quando estiver forte.

Encarada do ângulo da vida sem couraça, a teoria científica é um ponto de apoio no caos dos determinados vivos. 

No fundo de cada item organizado do meu trabalho havia o sentimento de ser apenas um ponto infinitesimal do Universo.  Para quem voa a uma altitude de mil metros, quão miseravelmente parecerá os carros arrastar-se lá embaixo!

Foi aí que finalmente entendi o meu interesse pelo significado da peça.  Ibsen havia simplesmente dramatizado a miséria do sujeito não convencional. 

De início Peer Gynt tem muitas ideias fantásticas e se sente forte.  Está fora de sintonia com a vida de todos os dias; é um sonhador, um ocioso.  Os outros vão diligentemente à escola ou ao trabalho e riem do sonhador.  Bem no fundo, todos eles também são Peer Gynts.

Peer Gynt sente o impulso da vida, que arremete impetuosamente.  A vida de todos os dias é estreita e exige um método rígido. Temendo o infinito o homem prático se tranca em um pedacinho da terra e procura segurança para sua vida, como cientista, dedica a sua vida inteira, no comércio modesto se ocupa como sapateiro – ele não deve pensar a respeito da vida: vai ao escritório, ao campo, à fábrica; visita aos pacientes; vai à escola.  Cumpre o seu dever e tem a sua paz.  Matou há muito tempo o Peer Gynt que havia nele. 

Pensar é muito cansativo e muito perigoso. Os Peer Gynts são uma ameaça à sua paz de espírito.  Seria muito tentador parecer-se com eles.  Na verdade, ele (o homem prático) está se tornando cada vez mais impotente, mas tem um “espírito crítico”, embora estéril; tem ideologias ou tem uma autoconfiança fascista.  É um escravo, um ninguém, mas a sua raça é uma “raça pura” ou nórdica; ele sabe que o “espírito” governa o corpo e que os generais defendem a “honra”.

Outros se identificam com os sentimentos do filhote de elefante, Peer Gynt está explodindo de energia e de alegria sensual. 

Peer Gynt acabará com o pescoço quebrado com a sua loucura – pois as pessoas cuidarão para que ele acabe com o pescoço quebrado. 

Tudo o mais é loucura e tolice.  Quer conquistar o mundo, mas este se recusa a ser conquistado: tem de ser dominado.  Só que isso é complicado demais, brutal demais.  Os ideais são para os tolos.  Para dominá-lo, precisa-se de conhecimento, de muito conhecimento, completo e irrefutável.  Mas Peer Gynt é um sonhador que não aprendeu nada de “sensato”.  Quer modificar o mundo, e o carrega dentro dele mesmo. 

 Assim era Ibsen, e assim era seu Peer Gynt.  É um drama que só perderá a sua pertinência quando os Peer Gynt finalmente vencerem.  Até lá o bom e o justo serão escarnecidos.”

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