Desenvolvimento natural do Ser Real, da Essência Pessoal

Muito se fala sobre o autoconhecimento e sua importância no caminho para o Mundo Real, que já faz parte de nosso ser. Autoconhecimento seria alcançar a plena consciência de que o Ser real está em nós, e dar voz a ele? Autoconhecimento também poderíamos utilizar para que nos conheçamos a partir do Ser muito especial que habita em nós, no fundo, o verdadeiro ser? Podemos também abranger mais e dizer que o autoconhecimento vai por toda nossa vida nesta parte tridimensional – sempre abrindo caminho, se abrirmos realmente nossos olhos, para que a quarta dimensão tenha prevalência em nosso ser.

Considero muito os ensinamentos de Wilhelm Reich quando fala das tensões musculares que se formam em nosso corpo ao longo do tempo de nossa vida. Veja, que Reich indica que as tensões musculares começam a se formar desde a gestação e principalmente nos primeiros anos de vida (principalmente na região superior de nosso corpo).

E tem sentido, a preocupação de muitos pensadores a respeito do período até os 3 anos de idade. Período em que o Ser humano real começa a ser esquecido e os conceitos começam a dominar na formação do Ser. Assim, o normal que seria a formação do Ser completo não ocorre.

Assim, se você, a partir das experiências da vida pretender encetar o caminho espiritual e reintegrar o Ser real – é necessário, descobrir em que ponto na fase até 3 anos perdeu o contato com o Ser Real. Veja, você tem que compreender o que ocorreu nesse período e não se preocupar se voltará a passar por essa lembrança, não tem como apagar ou forçar alguma coisa – se for desfeita essa causa de tensão, na base da plena aceitação da situação passada e ter em foco que a barreira mais difícil de transpor foi vencida. Dizem que, em nossa vida passamos por mudanças o tempo todo, mas a mais significativa está na faixa até os 3 anos.

Todas as mudanças por que passamos em nossa vida são muito superficiais – pequenas pedras ou tensões musculares, o importante realmente é chegar ao ponto onde, e os motivos que envolveram o distanciamento do Ser Real. Na realidade somente esse Ser Real existe, o resto de, digamos, nossa personalidade é tudo conceito, não passam de conceitos mentais.

Muitos pais procuram proteger a criança, especialmente no período até os 3 anos, pela influência do Ser Real em si mesmos.

Wilhelm Reich afirmava que o sistema trabalha para assassinar o Cristo que está na criança, apagar aquela Luz. Tanto incomodou seu livro, falava a respeito, que foi queimado (na democracia americana) junto com trabalhos científicos sobre a cura do câncer. Ele falava claramente, que tudo é feito para calar o Ser Real desde o nascimento, tanto pelos métodos científicos, como pelos próximos e que não davam a voz ao Ser Real em si mesmo.

Alexander Lowen, da bioenergética, também orientou a respeito, chegando ao ponto de falar sobre a importância da amamentação até os 3 anos de idade, por ser fundamental para o sistema respiratório ser completo e perfeito. Ele foi seguidor de Reich durante um período e sabia, como Reich, que respiramos muito mal, trocamos 1/3 do ar necessário a cada respiração. Veja, a importância disso para a renovação e alimentação do Ser Real. Essa respiração auxilia para aliviar os pontos onde temos tensões (desde essa idade), ou pode-se dizer nervuras.

Gudrun Burkhard, especialista na biografia humana, diz: “dentro do primeiro setênio, de zero a três anos, uma característica chama a atenção, que é domínio das forças formativas da cabeça”. Nesse sentido, Reich falava das tensões nessa região devido ao Ser Real ser substituído por conceitos mentais e intervenções brutais na formação da criança. Atualmente, vemos os cuidados de muitas mães no nascimento dos filhos até quanto ao primeiro banho,  somente depois de 24 horas do nascimento.

Essa é a maior pedra a ser removida no caminho espiritual, ou melhor, abrir caminho para o espiritual, voltando ao ponto onde foi perdido o contato. Interessante observar que o Ser Real ou Essência Pessoal está ocasionalmente presente nas crianças. E isso é muito importante.

Preste atenção, muitos tiveram a possibilidade de estar sem tensões, o que permite a presença do Ser Real, da Essência Pessoal. Aqui, cabe destacar as correntes de ensino (além é claro, dos Pais) que se preocupam com a formação da criança até sua juventude, sempre pensando na preservação da essência Pessoal, e lembramos aqui de vários como Comeníus, Krishnamurti, Steiner, Escolas JVR na Holanda, Escolas democráticas e outras vertentes mais modernas.

(…) nessa faixa etária, não são as capacidades de raciocínio, de agregar elementos ou de construir a partir de átomos que precisam ser incentivadas, mas a ativa imaginação infantil que vive no interior da criança, força que desprende do trabalho ágil e cheio de vida interior, ou seja, da configuração plástica do cérebro. Portanto dever-se-ia tentar evitar, tanto quanto possível, moldar a imaginação infantil em contornos rígidos e acabados. (Steiner)

A H Almaas, do Diamond Approach, também fala a respeito:

A quarta observação é que alguns alunos, após uma experiência inicial da Essência Pessoal, começam a relembrar experiências semelhantes na primeira infância, já no início do segundo ano. Às vezes, o processo de trabalhar as questões em torno da integração da Essência Pessoal envolve essas memórias pessoais. A quinta e última observação diz respeito à observação direta de crianças de várias idades, em situações normais de vida. O autor e alguns de seus associados observaram que a Essência Pessoal está ocasionalmente presente nas crianças. A experiência geralmente parece começar com um ano de idade, mas mais frequentemente no segundo ano. Sua frequência parece depender da idade e do caráter da criança.  Quando a Essência Pessoal parece estar presente, a criança se comporta de maneira confiante, forte, expansiva e mais adulta.  É incrível ver como uma criança que se comporta de maneira dependente e apegada, e que não mostra sinais de capacidade para uma maior individuação, pode repentinamente, quando a Essência Pessoal está presente nela, começar a agir de forma mais independente e adulta.  Nessas ocasiões, as funções da autonomia são maiores e mais integradas.  A coordenação física é melhor, a linguagem de repente fica mais fácil e as interações com os outros parecem fazer mais sentido.  Também há uma expressão clara de alegria na individuação da criança.  Todas essas observações indicam uma relação direta entre individuação e a presença da Essência Pessoal.  Mais importante para nossa investigação, parece haver uma relação entre a experiência da Essência Pessoal e o desenvolvimento do ego, embora essa relação não pareça ser direta e certamente não seja uma identidade de equivalência…

A teoria do condicionamento da aprendizagem e as descobertas das várias psicologias profundas revelam que, na primeira infância, as defesas são necessárias, em parte devido às inadequações ambientais e em parte devido à incapacidade do organismo humano ainda imaturo.  A necessidade de defesa e a internalização de muitas falsidades têm outra causa que raramente é observada na psicologia: é a onipresente ignorância do Ser na maioria das sociedades humanas.  Essa ignorância é absorvida pelo bebê em desenvolvimento e se torna parte da estrutura do ego. A identidade da personalidade se desenvolve na ausência da consciência do ser.  A presença do amor auxilia no processo do metabolismo, mas não tem muita força quando falta compreensão.  É necessário um grande conhecimento de natureza especializada para que as crianças sejam criadas de forma a conduzi-las ao desenvolvimento humano completo.  O conhecimento psicológico e espiritual agora disponível para a maioria das sociedades humanas é insuficiente para esta tarefa, porque o Ser é quase completamente ignorado na perspectiva social normal.  Parece que algumas tradições espirituais ainda possuem fragmentos desse conhecimento especializado, principalmente aquelas tradições que têm uma longa história de transmissão de experiências essenciais através das gerações.  Temos em mente algumas escolas budistas tibetanas e algumas escolas sufis da Ásia central.  Mesmo quando as circunstâncias favoráveis ​​permitem que a pessoa permaneça conectada ao Ser enquanto cresce, ela ainda desenvolverá uma autoimagem, mas a identificação com a autoimagem seria mais flexível e transparente…

Por outro lado, a curiosidade envolve amor pela verdade e alegria na verdade. A verdadeira curiosidade é uma qualidade rara.  É uma qualidade do Ser, e geralmente mata a curiosidade para evitar a exposição da falsidade do ego.  Podemos até ver a verdadeira curiosidade nas brincadeiras das crianças. Frequentemente, quando uma criança é um novo objeto, ela fica tão curiosa e tão envolvida em investigações que fica completamente absorta na atividade, separando ou juntando o objeto novamente, ou qualquer que seja.  Ele não está buscando resultado, ou tentando ganhar algo. Na verdade, depois de um tempo, quando sua curiosidade for satisfeita, ele provavelmente jogará o objeto fora, como se ele não tivesse mais interesse para ele.  Mas durante a investigação, que tem o caráter de brincadeira, ele fica totalmente absorvido, completamente arrebatado, desfrutando e amando a investigação…

Na infância, isso se manifesta geralmente no início da fase de aproximação, no comportamento da criança.  quando ele percebe que sua onipotência não é real.  Ele tenta coagir sua mãe de volta à unidade dual, por todos os tipos de tentativas de controle.  Ele tenta controlar sua distância dela.  Ele quer ter o controle da situação em suas próprias mãos, e é muito importante para ele fazer o que quer.  As tentativas de controle e o desejo de seguir seu próprio caminho podem ser vistos como um reflexo da necessidade da criança de afirmar sua própria vontade.  O conflito de reaproximação é entre seguir seu próprio caminho ou submeter-se aos desejos da mãe. Isso depende obviamente de perceber os desejos da mãe como não idênticos aos seus.  Seu desejo de afirmar sua própria vontade pode se manifestar como um comportamento negativista e uma necessidade de controle, porque tais comportamentos implicam separação e autonomia para ele.  No entanto, quando seus desejos são diferentes daqueles de sua mãe, ele sente que deve se submeter aos desejos dela se deseja o amor dela e deseja estar perto dela.  Mas isso significa abandonar sua própria vontade e, portanto, sua autonomia.  Portanto, ele vê a situação como um conflito entre ter sua vontade ou ter a fusão com a mãe. Na verdade, é um reflexo de dois desejos, ambos importantes, mas muitas vezes vividos pela criança como antitéticos: o desejo de fusão e o desejo de autonomia. A autonomia é vista aqui como a capacidade de fazer cumprir a sua vontade, fazendo o que quer.  No nível essencial, isso se manifesta como um conflito entre os aspectos da Fusão e da Vontade da Essência.  A Essência da Vontade é muito importante para a separação e individuação, tão importante quanto a Essência da Força.  A força dá ao indivíduo a energia e a capacidade de iniciativa, a vontade, por outro lado, é uma espécie de força, mas é a força da persistência, de poder ficar com uma tarefa até o fim.  É a capacidade de resistência, persistência e realização.  Parece uma sensação de solidez, de apoio interno, de determinação e confiança.  Se a Essência Pessoal parece “Eu sou” e a Essência da Força parece “Eu posso”, então a Essência da Vontade parece “Eu vou”.  É a confiança nas próprias habilidades.  Sua perda leva principalmente a um estado de castração e inadequação do ego. O indivíduo, então, não sente nenhuma confiança em si mesmo ou em suas capacidades.  Ele não sente nenhum apoio interno ou fortaleza, nenhuma espinha dorsal, nada para se apoiar.  Este aspecto é necessário para a individuação porque é a confiança de que se pode estar por si mesmo.  É realmente a vontade de ser, o suporte para ser você mesmo. 

Canção da humanidade

CANÇÃO DA HUMANIDADE – Kahlil Gibran

Eu estava aqui no começo,
e aqui estou ainda.
E ficarei aqui até o fim do mundo,
pois não há fim
para meu ser aflito.

Eu vaguei pelo céu infinito e me elevei ao mundo ideal,
e flutuei pelo firmamento.
Mas aqui estou, prisioneiro da medição.
Eu ouvi os ensinamentos de Confúcio.
Eu escutei a sabedoria de Brahma. Mas aqui estou,

Sentei-me ao lado de Buda sob a árvore do conhecimento existindo com ignorância e heresia.
Eu estive no Sinai quando Jeová se aproximou de Moisés.
Eu vi os milagres do Nazareno no Jordão.
Eu estive em Medina quando Maomé a visitou.
Mas aqui estou, prisioneiro da perplexidade.

E eu testemunhei o poder da Babilônia.
Eu soube da glória do Egito.
Eu vi a beligerante grandeza de Roma.
No entanto, meus ensinamentos anteriores
mostraram a fraqueza e a tristeza dessas conquistas.

Eu conversei com os magos de Ain Dour.
Eu debati com os sacerdotes da Assíria.
Eu colhi profundidade dos profetas da Palestina. No entanto,
ainda estou buscando a verdade.

Eu reuni sabedoria na tranquila Índia.
Eu explorei a antiguidade da Arábia.
Eu ouvi tudo que pode ser ouvido. No entanto,
meu coração é surdo e cego.

Eu sofri nas mãos de governantes despóticos.
Eu sofri a escravidão sob invasores insanos.
Eu sofri a fome imposta pela tirania. No entanto,
ainda possuo poder interior,
com o qual me esforço para receber cada dia

Minha mente está cheia,
mas meu coração está vazio,
Meu corpo é velho, mas meu coração é uma criança,
Talvez na juventude meu coração cresça,
mas eu rezo para envelhecer e
que chegue o momento do meu retorno a Deus.
Só então meu coração estará pleno!

Eu estava aqui
e aqui estou ainda.
E ficarei aqui até o fim do mundo,
pois não há fim
para meu ser aflito.

do livro Kahlil Gibran- o pequeno livro da vida, da Editora Best Seller

As pessoas mudam com o passar dos anos?

“Assim, a formação do ego ocorre no contexto de um relacionamento com um objeto de amor primário, a pessoa maternal. Esta é a fonte do analista inglês W. Ronald D. Fairbairn que chamou essa abordagem de “teoria das relações objetais”. Cada situação ou interação entre o bebê e a mãe é uma relação objetiva. Exceto nas fases iniciais, em que não há nenhuma diferenciação, o bebê sempre se vê em relação à mãe, não isoladamente. As memórias de tais interações são representações mentais das relações objetais. O bebê se lembra não apenas de si mesmo (essa é a imagem de si mesmo), mas sempre também da imagem da mãe na interação. A fixação dessas representações na mente é chamada de “internalização”. Quanto mais essas representações se acumulam, o que significa que quanto mais memórias são retidas e fixadas, inicia-se um processo de organização dessas representações. Essa organização das relações objetais internalizadas é a tarefa do processo de separação-individuação, que normalmente culmina no desenvolvimento da constância do self e do objeto”.

“Assim, o sentido do self, baseado na autoimagem coesa, é o resultado de uma integração das primeiras relações objetais. Esta organização do ego é modificada constantemente à medida que mais relações objetais são internalizadas, mas identificações posteriores, após a idade de aproximadamente três anos, acrescentam pouco em termos da estrutura básica. Isso contradiz a crença popular de que as pessoas mudam com o passar dos anos. O fato é que o passar do tempo apenas solidifica a estrutura já estabelecida. Esta é uma das razões pelas quais a mudança na psicoterapia não é fácil. Esteja ele em psicoterapia, apenas vive uma estrutura já estabelecida, expressando uma qualquer ou não, uma individualidade individual já formada, com seus papéis previamente estabelecidos. Novas situações podem parecer trazer mudanças, mas essas mudanças raramente são fundamentais, em geral apenas trazendo à tona na manifestação comportamental outros papéis do repertório inconsciente do self”.

AHAlmaas

Trabalhos em grupo

Modernos movimentos espirituais utilizam trabalhos em grupos. Interessante, não é? São muito importantes no tocante ao autoconhecimento e abertura de espaço, em cada participante, para que se desenvolva espiritualmente. Algo como, 1 em todos e todos em 1. Os trabalhos em grupo do movimento Diamond Approach têm abertura para participação em grupos já formados, a cargo do mentor do mesmo. Lembro ainda da Távola Redonda e suas reuniões. Assim, também temos a Santa Ceia.

Wilfred Bion, durante a guerra, trabalhou com grupos e já falava da geração de um filho no grupo (lembrando a figura de Galaad) dentro das limitações da época e guerra. 

Do trabalho de Edilene de Lima em sua tese pinçamos: A Noção de Cura em Bion: “O “bom espírito do grupo” está relacionado às seguintes condições: ter um objetivo comum ou propósito compartilhado; reconhecer os limites do grupo e sua relação com grupos maiores; ter certa flexibilidade para absorver novos membros e perder outros, sem perder a identidade grupal; garantir a liberdade para surgir subgrupos, e encará-los como importantes para o grupo principal; liberdade de movimento para cada membro individualmente e reconhecimento de suas contribuições; o grupo deve desenvolver capacidades para enfrentar e lidar com os descontentamentos internos; o grupo deve ter no mínimo três pessoas, como garantia de estabelecer relações interpessoais”.

No Círculo criado por Merlin todos seriam iguais, não brigando por status ou posição, não tinha a cabeceira na mesa e para sentar-se nela tinha que ser um nobre, código de honra e serviço prestado. E numa reunião Merlin disse-lhes: “de agora em diante vocês devem se amar e se abraçar como irmãos, nascerá em seus corações uma grande alegria e amizade e deixarão tudo para trás para ficarem juntos e passarem a juventude juntos”

A Távola Redonda utilizava o círculo com símbolo da perfeição, e cuja disposição dos participantes ao seu redor geraria uma harmonia – união e unidade entre os 12. Também tem relação com o movimento celeste e zodiacal onde os participantes poderiam ter correspondência. Um assento vago no centro do Templo de Luz formado corresponde a Cristo, o local onde o cavaleiro mais virtuoso poderia sentar-se – pureza e paz de espírito – Galaad. Levando isso em conta, apenas o cavaleiro mais puro conseguiria efetivamente encontrar o Graal. Esse cavaleiro é o “melhor cavaleiro do mundo”: Galaad.

É considerado pelos narradores que o Rei Arthur seria o Mentor do grupo por ser um Rei que conseguia unificar todo um reino. Porém, o Rei Arthur mesmo não é o fim do processo – somente um cavaleiro puro e livre poderá encontrar o Graal. Por isso, Galaad é o eleito. Praticamente todos os cavaleiros da Távola Redonda eram nobres: tinham boas qualidades pessoais ou altos princípios e ideais morais. Um nobre digno, louvável, generoso, que merece atenção pelo seu valor.

Para os celtas, o círculo possui características mágicas e celestes, estando presentes em vários de seus símbolos.

Para o trabalho com grupos é preciso ter um mapa e uma bússola, para haver condição (e ainda não a garantia) de saber onde se quer chegar e de como fazer para isso.

Sobre a efetiva participação (real presença) de todos do grupo no ensino do Diamond Approach fazem estas perguntas: “Diga-me algo que impede você de estar aqui e agora?”   “Diga-me algo que você está experimentando agora?”

Jean-Paul Sartre apresentou uma teoria acerca de grupos. No grupo sartreano, as liberdades se associam, agregam esforços e lutam juntas para transformar uma situação, com vistas a um fim comum. Suas condições preliminares são: estar em um campo comum, ter a urgência de um fim comum, a crença de que a solução está no grupal e contar com o ímpeto de todos. Para Sartre, os próprios membros do grupo criam o grupo que é uma união de interioridades, cada membro unifica os demais, o papel de terceiro unificador circula entre os membros do grupo (isso lembra Wilfred Bion). É possível unificar os outros em um todo objetivo. Já não existem ―outros, mas vários ―eu mesmo (1 em 12, 12 em 1= 13): Sartre defende que o todo se encontra em cada parte que interioriza esse todo. Um grupo trabalhando num tópico específico é um sistema que age como um todo, e o que afeta uma parte afeta o todo.

A presença ativa na reunião propicia que o membro do grupo entre em contato com ele mesmo no momento presente (aqui e agora), tornando-se mais consciente de suas sensações e sentimentos, observador de si mesmo. Sua experiência interior aflora através de sua fala e até expressão corporal. A confidencialidade do que é tratado no grupo é questão básica, para facilitar possível exposição de sua intimidade, uma pedra que precisa ser dissolvida no grupo.

Vivenciando o momento como a única opção, aprofunda-se na experiência mais rica do que acreditamos ser esse mergulho interior. É justamente a vivência do presente e a comunicação da experiência presente aos amigos do grupo que purifica o ser e o grupo.

[…] Contra a noite, depois de muita preparação e vivência, quando se assentaram à mesa ouviram um trovão tão grande e espantoso. E logo depois do trovão, entrou uma tão grande claridade, que tornou o espaço dois tantos mais claro que era antes – estavam sentados, e logo todos foram repletos da graça do Espírito Santo e começaram a olhar uns aos outros, e viram-se muito mais formosos, muito mais do que costumavam ser, e maravilharam-se muito com essa vivência e não houve quem pudesse falar por muito grande tempo, estavam calados e olhavam-se uns aos outros.

Conceptus

Conceptus

Real – Sente – Pulsa – Abrange – Penso – Falo – Calo – Acontece – Vive – Vou – Volto – Tudo.

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Tudo conceituamos, a tudo nos prendemos e não percebemos que são simples conceitos. Damos vida aos conceitos. Conceitos nos arrastam, nos prendem em suas teias. Temos que perceber, sentir, compreender e conviver sem ligação fixa e rígida com conceitos. Tudo é conceito, a pedra, o vegetal, o homem, o rico, o pobre, o faminto e tudo que nos cerca em nossa visão tridimensional. E tudo queremos abandonar, se distanciar. Mas como, se tudo é criação nossa. Tudo que percebo, meus amigos, inimigos, o triste e o alegre, tudo é minha criação. Assusta e não assusta. Tudo fica diferente, vive, a partir da visão que engloba as 4 dimensões (não existe separação, se interpenetram). A partir do momento que você tira sua roupagem e fica nú e não joga a roupa fora – uma claridade indescritível te penetra e você sente a beleza em tudo. Aquele que você vê e te causa asco, uau, te pertence, faz parte do seu mundo finito e infinito, pois ele é a vida, vive. Qualquer coisa, seja pessoa ou não, está no seu caminho apesar das aparências. E não percebemos a grandiosidade que está nele. Vida é Luz, Luz é vida. Conceitos são conceitos, simples conceitos. Formados na sua mente. Sim Conceptus. Não Conceptus. Conceptus – folhas que devem ser observadas e não tem como descartar.

https://www.colab55.com/@drtanajura/totebags/conceptus

Conceptus – coisa concebida – formada na mente. Um conceito pode ser traduzido como a concepção ou a caracterização de algo. De maneira mais profunda, podemos dizer que o conceito corresponde à formulação de ideias por meio de palavras ou, então, de recursos visuais. Tendo surgido a partir do termo em latim conceptus, que significa “coisa concebida” ou “formada na mente”, o conceito pode ser expresso como uma ideia sobre algo ou alguma coisa. O conceito é, então, aquilo que é concebido em pensamento sobre algo ou alguém. É a maneira como pensamos sobre algum assunto, elemento, objeto ou pessoa.

Terceira…quarta…vida

“O homem conhece três dimensões: a altura, o comprimento e a largura, pelas quais ele percebe um espaço vital. A humanidade se sente apertada, sufocada nestas três dimensões e a ciência de forma tridimensional procura alargar, aumentar esse espaço.Está claro que as dificuldades atuais desapareceriam num instante se a ciência pudesse reconhecer a quarta dimensão. A quarta dimensão existe! É a dimensão onde o tempo, distância, passado, presente, futuro, agora e depois estão abolidos. Se a humanidade possuísse essa quarta dimensão, não seria necessário tentar alcançar Marte, Vênus, ou Mercúrio por exemplo. Pois pensar na lua segundo a quarta dimensão, significaria estar nela. Enfim, possuir a quarta dimensão, é possuir o poder da onipresença.”

Catharose de Petri – “O Verbo Vivente” – Editora Pentagrama

Falha Básica

No post anterior AHA aborda sobre a Ressurreição, do capítulo “Falha básica e a Ressureição” – livro 5.

Quem falou exaustivamente sobre “Falha Básica” foi o conhecido Wilfred Ruprecht Bion, um psicanalista britânico, pioneiro em dinâmica de grupo. Para quem quer observar mais é só verificar nos trabalhos do Wilfred, onde fala bastante da ligação da criança com o seio materno, mais ou menos uma fuga do real quando ele bate na porta.

Mas vamos ao texto do AHA:

“Os vários ensinamentos espirituais abordam, a seu modo, sobre nossa separação fundamental da realidade. A compreensão dessa separação se conecta a um conceito de desconexão dolorosa da psicologia universal na alma infantil, que o teórico Wilfred R. Bion chamou de Falha Básica. Hoje, vamos usar a frase “Falha Básica” para falar da separação fundamental de cada pessoa do Ser, reconhecendo como isso se relaciona com o conceito psicológico. A verdadeira transformação acontece apenas através da percepção e compreensão desta Falha Básica…

A Falha Básica é pensar que a realidade é uma coleção de seios e bocas abertas procurando um pelo outro.  A Falha Básica assume que a relação do objeto central é a verdade, é como as coisas realmente funcionam.  Então, quando a realidade começa a se afirmar, quando você começa a crescer, a perspectiva é desafiada…

A resolução da Falha Básica, que é ver o mundo físico como a realidade, não é a eliminação deste mundo. O mundo se torna mais aberto e real.  Não eliminamos as três dimensões; simplesmente temos a participação da quarta dimensão.  Quando sua perspectiva muda, não é a perspectiva da terceira dimensão perdida.  Se você disser: “Eu movo minha mão”, da perspectiva da quarta dimensão, você dirá: “O universo move esta mão”. Você vê que sua mão não pertence a você. A mão do universo se move. A forma do movimento não parece diferente, mas sua percepção dele é diferente. Isso é o despertar da vida.

Você vive uma vida normal?


Então, quando você diz: “O que é um ser humano?” é a mesma coisa que dizer: “O que é amor? O que é uma casa?” Você poderia falar sobre isso. Tudo isso existe. Não estou negando a existência de nenhuma dessas coisas. Estou dizendo que não há separação entre eles. Isso não significa que não haja casas. Existem casas, mas não existem casas. Existem seres humanos, mas não existem seres humanos. Eles existem, mas não da maneira que você pensa.

A resolução do dilema, como viver neste mundo de objetos e ver a realidade objetiva, estou chamando de ressurreição. A ressurreição significa ver o mundo dos objetos de uma nova perspectiva, como infundido e unido com e pela quarta dimensão. A verdade incorpora o mundo. Então, em vez de um mundo construído de objetos discretos que são inertes, o mundo se torna um mundo vivo de harmonia e unidade. As coisas são diferenciadas, mas não são separadas. Funcionar, fazer e viver a vida, então, não é algo incomum voar aqui ou ali, materializando-se ou desmaterializando-se. Você vive uma vida normal, mas é uma vida de verdade, de harmonia, de realização, uma vida que não tem obstáculos.

AHA

Wilfred Bion

“Avisto a verde colina, tão verde se comparada à queimada e árida Índia do dia terminado – e sobre os seus muros em miniatura, justaposto com joias. Ó pequena colina verde – sem muros de cidade a sua volta? Quanto tempo passou para perceber o que o poeta queria dizer sobre a pequena colina não ter muros de cidade, e me dar conta do que realmente queria dizer – que incrível – ela se encontrava fora dos muros da cidade.”

Afundando os barcos

Interessante refletirmos sobre a ideia de largar todos nossos conceitos e dos outros. Esses conceitos e outras teimosias de nossa parte, podemos definir como barcos ou muletas que nos ajudam a caminhar, parar de pé. Mas chegará um momento, a partir das vivencias das experiências, com a sintonia cada vez mais fina da consciência – e antes de chegar a outra margem do rio da vida – em que precisaremos afundar todos os barcos, largar as muletas, etc. No caminho espiritual temos que tudo abandonar, porém, não é do dia para noite. Veja a visão bem atual de Almaas sobre tudo o que dissemos:

“Talvez você descubra que errou para começar, que o mundo inteiro foi uma invenção da sua imaginação. Talvez você tenha pensado todo esse tempo que tinha que fazer as coisas e depois descobrir que elas são feitas por si mesmo…

Cada um de nós tem uma criança interior que é ignorante, assustada e desligada da essência real, que não é tocada por nossas experiências sublimes e transcendentais, que ainda precisam ser cuidadas e amadas. Não podemos tentar nos livrar dela, nem ela simplesmente desaparecer por causa de nossas experiências de iluminação. Tentar se livrar dela é impossível e o caminho errado a seguir. Se tentarmos nos livrar dela, a criança interior ficará mais obstinada e assustada. Precisamos educá-la com cuidado e amor. Então, com o tempo, a criança interior se dissolverá, amadurecerá e se tornará mais suave. Ele se fundirá naturalmente com a natureza essencial e se integrará. Mas ela se permitirá derreter apenas se se sentir amada e segura…

Viver uma verdadeira vida humana significa a integração do que esquecemos e do que não sabemos, do ego e da essência. É a união, a harmonia da superfície com a profundidade. Nós, ego e essência, nos tornamos um. Tornamo-nos um por completo. Amadurecemos como uma alma não dual…

Você está lidando com sua vida, sua situação, sua mente, seu coração e sua natureza. Você pode usar todos os conceitos e ideias disponíveis de fora, como eu disse, mas use-os de forma inteligente. Use-os como veículos, como barcos, não como a própria verdade. Use-os para descobrir o que é verdade, não apenas para se consolar com o que pode ser verdade. Use-os para confrontar a sua verdade, não para evitar certas verdades. Assim, aos poucos, aprendemos a nos tornar mais autônomos, mais independentes…

É possível ser real além das ideias, além dos barcos, além dos livros e ensinamentos. Você pode andar com seus próprios pés; você pode ser sua natureza além das palavras, além dos conceitos, além dos ensinamentos. Você pode simplesmente ser, e esse será o maior ensinamento, o maior testamento para a humanidade. Para ser um ser humano verdadeiramente maduro, você tem que ir além de todo conteúdo da mente, o seu e o dos outros. A realidade é o que é, não como a chamamos, não o que pensamos sobre ela, não o que dizemos sobre ela. A realidade está além de todas as criações da mente, independentemente de quão sublime e espiritual. Haverá mais criações no futuro. Nossa mente não para de criar conceitos e nunca vamos parar de ouvir histórias…

Portanto, o verdadeiro estado de realização é na verdade uma falta de apego à realização. Quando você é realmente autônomo, você é verdadeiramente maduro. Você não precisa de barcos; você não precisa nem pensar que não precisa de barcos. Você não precisa pensar que é iluminado. Se você precisa pensar que é iluminado, ainda precisa de um barco. Para ser um ser humano verdadeiramente maduro, você não precisa pensar em nada sobre onde está. A iluminação é uma ideia que foi criada porque as pessoas se esqueceram de como ser elas mesmas. Se os seres humanos nunca esquecessem seu estado original, não haveria ideia de iluminação…

Quando você percebe a verdade, porém, vê que não precisa de um barco, pois já chegou à terra. Você só precisa de um barco quando ainda não atingiu a terra. Mas o barco não pode levá-lo até a costa. Você deve se molhar. Você tem que deixar o barco em algum ponto antes de chegar à costa. Você tem que molhar os pés…

Afundar os barcos significa afundar todos os barcos, não apenas a oração e a meditação. Os métodos espirituais nada mais são do que usar a própria atividade do ego a serviço da verdade – pelo menos para os primeiros estágios do caminho. O ego começa a trabalhar a partir do momento em que é criado. Todos estão trabalhando em si mesmos o tempo todo, muito antes de ingressarem em uma escola de trabalho. Todos estão tentando se tornar melhores: mais amorosos, mais fortes, mais inteligentes, mais bem-sucedido, mais útil, mais bonito e assim por diante. O trabalho simplesmente direciona essa tendência compulsiva do ego para si mesmo. Você pode estar trabalhando para alcançar a felicidade, riqueza, fama, alguém que ame você, iluminação ou Deus. É tudo a mesma coisa. É a mesma pessoa tentando fazer isso, tentando chegar a algum lugar. Por que você quer orar ou meditar? No momento em que você se senta e digamos que você queira meditar, você já tem esperança de que algo acontecerá.

Você está trabalhando em si mesmo. A mesma pessoa e a mesma atitude ficava quieta para que a mamãe te amasse, para que o papai não batesse em você. Você quer a mesma coisa, ficar em paz, ser feliz. Quando você era criança, você tentava ser bom agradando sua mãe; agora você tenta ser bom meditando. Mas as pessoas que criaram as meditações são espertas porque através da meditação você verá, em algum ponto, que o que você está fazendo é uma atividade sem esperança. Mais precisamente, o que separa os bons métodos espirituais dos esforços normais do ego é que eles estão configurados para se autodestruir em algum ponto. A atividade do ego é infinita e não reflete a si mesma. Os métodos espirituais ajudam você a ver o que você é e o absurdo de tentar se iluminar. Quando você chegar a este ponto, estará pronto para afundar seus barcos.

Então, simplesmente vivendo, você está meditando, orando e amando a verdade o tempo todo, sem saber que está fazendo isso. A realização tornou-se inconsciente. Enquanto for autoconsciente, ainda haverá apego. No momento em que você está consciente do que está fazendo e quer que seja bom, você sabe que ainda precisa daquele barco. É uma jornada profunda e difícil chegar ao ponto em que a realização é inconsciente. Os seres humanos têm sorte se têm lampejos dessa verdadeira naturalidade de vez em quando. Para realmente afundar nossos barcos e amadurecer, teremos que passar por grandes dúvidas e grandes medos. Precisamos entender como nossa mente funciona, a verdadeira dinâmica da experiência. Precisamos estar sozinhos no universo. Muitos poucos seres humanos realmente fazem isso. Mas é possível e revela a verdadeira dignidade e maturidade humanas”.