Você está aqui?

Hamed Ali (Almaas) perguntou em uma reunião com estudantes:

Você está aqui? 

Você está realmente aqui nesta sala?  Não quero dizer que seu corpo está aqui, porque esse é obviamente o caso. 

Mas você está aqui? 

Você sente que está aqui na sala? 

Você está ciente de que está presente aqui e de sua experiência real neste momento? 

Ou, você está perdido em pensamentos, fantasias, planos, reações emocionais? 

Você está aqui agora, ou está tentando estar aqui, fazendo um esforço simbólico por que é disso que estamos falando? 

Você está ciente de tudo e de todos ao seu redor? 

Quando você ouve a pergunta “Você está aqui?”  não é importante, ao responder, que você tente ser bom ou correto.  É importante apenas explorar por si mesmo, você está aqui ou não?  Você está em seu corpo ou alheio, ou apenas ciente de partes dele? Quando digo: “Você está em seu corpo?” Quero dizer, “Você está percebendo completamente o seu corpo?” Você está presente em suas células, habitando e preenchendo seu corpo?  Se você não está em seu corpo, que significado há em sua experiência neste momento? Você está se preparando para estar aqui no futuro? Você está estabelecendo condições dizendo a si mesmo: “Quando isso ou aquilo acontecer, terei tempo, estarei aqui”? 

Se você não está aqui, para que está se guardando? Independentemente das histórias que você conta a si mesmo, neste momento, neste exato momento, existe apenas este momento, aqui, agora. Nada mais existe. Para sua experiência direta, apenas o aqui e agora é relevante. Apenas o agora é real. E é sempre assim. 

Portanto, precisamos nos perguntar porque nos colocamos em espera, esperando o momento certo, esperando as circunstâncias certas surgirem no futuro. Talvez a hora certa nunca chegue. Talvez as condições que você tem em mente nunca surjam para você. Quando você começará a existir então? 

O fato mais direto e óbvio da experiência é que o momento, o aqui e agora, é tudo o que existe. Isso é tudo que existe neste momento. O que quer que esteja acontecendo neste momento, é a sua vida. Não estou sugerindo que você apenas neste momento, deixe de conseguir ou fazer qualquer coisa, até mesmo compreender qualquer coisa. Eu quero dizer apenas ser. 

Por que você acha que o que você faz, o que você tem e o que você obtém são mais importantes do que apenas estar aqui? Por que você está sempre querendo algo ou ir a algum lugar? Por que não apenas relaxar e estar aqui, simplesmente existindo em todas as suas células, habitando todo o seu corpo? Quando você vai se permitir descer de suas preocupações elevadas e simplesmente pousar onde está? Pare de sonhar, tramar, planejar, trabalhar, realizar, manipular, tentar ser algo, tentar chegar a algum lugar. 

Você se esquece da coisa mais simples e óbvia, que é estar aqui. Se você não está em seu corpo, perde a fonte de todo significado e satisfação. 

Como você pode sentir a satisfação, se você não está aqui? 

Sentimos falta de quem somos, o que é fundamentalmente ser, existência. Se não estivermos aqui, existimos apenas nas periferias da realidade. Não valorizamos suficientemente o simplesmente ser. Em vez disso, valorizamos o que queremos realizar ou o que desejamos possuir. É nosso maior erro. É a chamada “grande traição”. 

Estamos sempre em busca de prazer, buscando freneticamente a felicidade de várias maneiras, e perdendo totalmente o prazer mais simples e fundamental, que na verdade é também o maior prazer: apenas estar aqui. Quando estamos realmente presentes, a própria presença é feita de plenitude. Nossos hábitos e condicionamentos nos levam a esquecer o maior tesouro que temos, nosso direito de nascença – o prazer e a leveza da existência. Pensamos que teremos prazer ou deleite se cumprirmos um certo plano, se um certo sonho se concretizar, alguém de quem gostamos gostar de nós, se fizermos uma viagem maravilhosa. Essa atitude é um insulto a quem somos. Nós somos o prazer, nós somos a alegria, nós somos o significado mais profundo e o valor mais alto. 

Quando entendemos isso, vemos que é ridículo pensar que obteremos prazer e alegria por meio dessas coisas externas – fazendo isso ou aquilo, ou recebendo aprovação ou amor dessa ou daquela pessoa. 

Felicidade, valor e prazer não são o resultado de nada. Essas qualidades fazem parte de nossa natureza fundamental. Se simplesmente nos permitirmos ser, esta é nossa experiência natural. Você é a coisa mais preciosa do universo, mas se comporta como se fosse a coisa mais pobre e trivial que existe. Realmente, não é preciso muito para ver isso. Apenas pare o contínuo turbilhão. Deixe-se relaxar e esteja presente. Você pode se permitir fazer isso onde quer que esteja. Você não precisa estar nas Ilhas Canárias para ser feliz. Você não precisa estar com alguém por quem está apaixonado e que ama você para ser feliz. Colocar essas condições em sua felicidade é uma maneira degradante de se olhar. Claro, você pode ser feliz nas Canárias ou com alguém que você ama, mas e quanto ao resto do tempo? Você se abandona e começa a buscar satisfação. Você sente que falta algo, por isso está sempre em busca, adquirir ou realizar não o preenche

Não é que algumas pessoas fiquem satisfeitas em ser e outras não; não, todos nos sentimos satisfeitos quando somos nós mesmos. É uma qualidade de nossa natureza humana. É nosso dom natural. É o significado de ser humano. A única coisa que precisamos fazer é nos deixar ser. Se você simplesmente se sentir neste momento, mesmo que sinta que não está de uma forma plena e satisfatória, você vai 

naturalmente tomando consciência do que está bloqueando seu ser. 

O que está me impedindo de ser neste momento? Por que, eu quero ir para outro lugar? Por que estou sempre pensando sobre o que vai me fazer feliz? 

Podemos nos tornar naturalmente curiosos e começar a desvendar as crenças, esperanças e medos que criam os bloqueios para estarmos cientes de nosso ser. Quando paramos para pensar, reconhecemos que felicidade não é algo que somos e vai chegar a algum lugar, nem é o resultado de alguma ação que realizamos. 

Buscamos prazer, alegria, felicidade, paz, força, poder. Mas esses são simplesmente aspectos de nossa existência. Nossa natureza, nossa origem é a coisa mais preciosa que existe. A própria existência é uma delícia. Essa existência, esse deleite, é o próprio centro da realidade, o tempo todo. Por nos esquecermos de nossa origem e de nossa verdadeira natureza, tendemos a ficar à margem da existência e nunca nos permitimos viver a partir do centro de nós mesmos. É uma história quase trágica. 

Quando os professores dizem que você está dormindo ou se perdeu, eles querem dizer que você se afastou de sua existência. Você está adormecido para o seu ser. Mas não é exatamente porque você se extraviou, no sentido de que estava em outro lugar, perdido, e agora está aqui. Na verdade, você estava aqui o tempo todo. Na verdade, você sempre esteve aqui. Somos um ser, não um pensamento seguindo outro pensamento. 

Somos algo muito mais fundamental, mais substancial do que isso. Somos um ser, uma existência, uma presença que impregna o presente e preenche nosso corpo. Nós vamos tão longe de nós mesmos, mas o que procuramos está tão perto. Constantemente, colocamos nossa atenção em que se a situação é o que queremos ou não queremos. Isso é bom ou ruim? Mas o significado de qualquer experiência é nossa mera presença, nada mais. O conteúdo de qualquer experiência é simplesmente uma manifestação externa dessa presença central. 

Então, qual é o sentido de esperar? 

O que exatamente você está esperando? 

Alguém vai te dar o que você sempre quis? 

O que o impede de ser, de estar presente, não é nada além de sua esperança para o futuro. Esperar que algo seja diferente o mantém em busca de alguma fantasia futura. Mas é uma miragem; você nunca chegará lá. A miragem o impede de perceber o óbvio, a preciosidade do ser.

Claro, quando você se deixa ser, quando se deixa afundar na realidade, você pode experimentar coisas desagradáveis; mas essas são simplesmente as barreiras que impedem você de existir. 

No tempo, com presença, eles se dissolverão. Você pode sentir desconforto, medo, mágoa e vários sentimentos negativos. Essas são as coisas que você está tentando evitar por não estar aqui. Mas são apenas acumulações do que foi varrido para debaixo do tapete da inconsciência. Eles não são você. Eles são o que você enfrenta no caminho para a existência. Quando reconhecemos e entendemos esses sentimentos enquanto estamos presentes, eles se dissolvem, porque a ideia de nós mesmos e em que se baseiam não é verdadeira. 

Quando as ilusões se dissolverem, o que é real, sua natureza, surgirá e permanecerá. Você passa por um processo de purificação, não porque o Ser esteja manchado, mas porque você acumulou tantas suposições e crenças sobre a realidade. Se continuar a ter esperança e contar histórias a si mesmo, continuará adormecido, porque a realidade ainda é como é, queira você ou não. 

Você gostaria que sua felicidade dependesse de algo diferente de sua natureza? Nosso trabalho aqui não é chegar a algum lugar ou realizar algo, mas permitir que nosso ser surja. Apenas habitar seu corpo. 

Não estamos falando sobre algo que você faz de vez em quando, quando medita, e no resto do tempo faz coisas importantes em sua vida. É assim que pensamos: “Vou meditar agora, e depois continuar com meu dia, continuar com minha agenda importante.” 

O que é importante? 

Você é importante. 

Você não precisa fazer nada importante para ser importante. Você não precisa alcançar a iluminação ou realizar qualquer ação nobre para dar importância à sua vida. Tu és. Essa é a coisa mais importante que existe. Você é muito especial, sempre. Você não é importante porque alguém pensa que você é especial, nem por causa de quaisquer capacidades ou realizações incomuns. Você é importante por causa de sua natureza; você não pode deixar de ser importante e precioso. Nada pode provar ou desmentir. 

Você é importante porque sem a sua presença real, não há significado na vida, não há valor na vida. Quando você está consciente de sua existência, a experiência é um prazer absoluto. Esse prazer existe independentemente do que você esteja fazendo – esfregando o chão, indo ao banheiro, criando algo maravilhoso. Cada momento é precioso e vivido ao máximo. Você não é os sentimentos, os pensamentos ou o conteúdo da sua consciência. Nenhum desses é quem você é. Você é a plenitude do seu Ser, a substância da sua presença. 

Pontos de entrevista da Irina Tweedie, sobre seu desenvolvimento espiritual

Irina Tweedie, autora do livro A filha do Fogo, concedeu uma entrevista (já faz um tempinho) sobre seu caminho no desenvolvimento espiritual e que está na integra no site dos Golden Sufis da Califórnia.

Pinçamos algumas ideias apresentadas pela Irina nessa entrevista:

“O ramo Naqshbandi do Sufismo está na Índia há centenas de anos, onde usam palavras como chakras e mantras e todas aquelas expressões indianas. O meu treinamento foi com fogo, o caminho da kundalini, o caminho do fogo”.

Apesar de ter escrito o livro sobre seu desenvolvimento espiritual, Irina Tweedie disse que colocou seu nome como autora, claro, caso contrário os bibliotecários não saberiam localizá-lo: “Mas nós, sufis, devemos escrever anonimamente e é a maneira mais anônima que eu poderia alcançar no Ocidente”.

Sobre seu mestre Sufi: ‘Três semanas antes de morrer, ele disse: “Treinamento espiritual? Besteira! Tudo o que fiz, foi tentar apagar seu ego.” E eu disse a mim mesma: Aquela pequena parte que passei não foi um treinamento espiritual? Fiquei furiosa no momento, mas ele estava certo. O verdadeiro treinamento espiritual começou com meditação profunda, no Himalaia, e continuou”.

Irina cita na entrevista superficialmente que um dos sérios entraves no processo espiritual foi se desapegar do dinheiro, como solicitado pelo seu mestre, pois tinha uma boa quantia deixada pelo marido.

“Então, se alguém vem até mim no princípio do trabalho espiritual, não há nada especial, apenas tomamos chá, estamos juntos e o ambiente é especial, a meditação é linda e isso é tudo o que existe. Aos poucos, eu recebo a instrução de passar a prática para essa pessoa, ou essa prática para outra pessoa, aí eu vou fazendo, só isso. Não há disciplina exterior, é apenas uma reunião feliz de pessoas, e muitas risadas e muitas piadas. Eu me lembro, bem no começo tinha um evangelista americano, segundo minha análise, e ele tinha uma esposa muito linda, ela costumava vir até nós, porque a Margaret a trouxe aqui no começo. E então, ele veio uma ou duas vezes para ver onde sua esposa estava indo e ele não gostava disso, e ela costumava vir, mas ele imaginava que era inofensivo o suficiente para não dizer nada. E um dia, estávamos contando piadas, eu estava com disposição para contar piadas francesas. E então, Irene foi para casa e ele disse a ela “o que você tem feito?” Ela disse “Oh, a Sra. Tweedie estava contando piadas francesas.” Ele disse “O quê!” Desde então, ele não permitiu sua ida. Eu ri e ri. Esta é a reunião Sufi, você vê.”.

“Eu sou como um rádio. Eu apenas passo adiante. Foi você quem fez isso, eu também fiz, juntos fizemos

E outra parte da longa entrevista, diz Tweedie: “A meditação não é meditação em si. Somos muito semelhantes ao Zen Budismo. Sentamos sem sentar, andamos sem andar, meditamos sem meditar. É um estado de ser, realmente é um ser. Se você disser a um ser humano “pare a mente” – nada acontecerá. Nossa meditação deve nos levar além da mente, para a quietude completa. Portanto, estritamente falando, não é uma meditação. É um estado de ioga para acalmar a mente, isso é realmente eficaz, tentamos deixar a mente para trás completamente. Então existe, posso dizer que existe, um método que é dado a todos. O corpo está completamente relaxado, qualquer posição é permitida, você pode deitar, sentar, sentar de pernas cruzadas, mas sentar de pernas cruzadas é realmente o melhor. E completamente relaxado, para que você possa esquecer o corpo físico”.

“Como somos feitos à imagem de Deus, há um lugar em nossos corações onde só Deus reside, o lugar dele, reservado apenas para ele. Vou te dar uma prova de que é verdade. Quando você ama, ama profundamente outro ser humano, profundamente mesmo, em algum lugar você sentirá que ainda está sozinho, e esse ser humano muito amado não tem acesso. Aconteceu comigo quando amei tanto meu marido. Eu dizia que estava realizada. Eu o amava, éramos muito felizes. Mas em algum lugar existe, digamos, essa saudade, em algum lugar estou sozinho, o que é? Este é o lugar que ele reservou para si mesmo. Porque você e eu e todos os outros somos feitos à imagem dele. A imaginação é uma coisa muito divina no ser humano, é muito útil. Devemos imaginar que vamos fundo – dentro de nós mesmos. Mais e mais fundo e bastante profundo. Lá encontraremos este lugar, onde há quietude, paz e acima de tudo amor. Deus é amor, o ser humano é todo amor, só o humano o esqueceu há muito tempo. Levaria alguns dias para encontrar esse lugar. Quando encontrarmos este lugar, deveremos fazer uma segunda imaginação. Estamos no lugar, e esse lugar está, obviamente, no coração. Sentamos nesta câmara silenciosa – em nosso coração, corpo físico e tudo, estamos ali rodeados pelo amor de Deus. Somos amados, estamos seguros e nada fica do lado de fora, nem mesmo um fio de cabelo, tudo está lá. Essa é a segunda imaginação. E então, é claro, enquanto estamos tentando encontrar esse lugar, nossa mente não atrapalhará, porque a mente gosta de fazer algo. Mas quando estamos sentados, os pensamentos vêm à sua mente. Esqueci uma coisa ontem, tenho que fazer alguma coisa amanhã, ou tenho que fazer um telefonema e assim por diante. Basta fazer a terceira imaginação. Imaginando a coisa, você pega esse pensamento e o afoga no amor. E se for bem feito, o pensamento deve desaparecer e não há nada ali. E realmente irá embora, porque o sentimento de amor que você gera ao estar no lugar do amor é muito mais dinâmico do que o pensamento – esse pensamento realmente se dissolverá. Então essa é a prática”.

”Mas o ser humano que acabou de chegar a mim e talvez nem tenha uma ideia da vida espiritual, você pode dizer – você provavelmente pode apenas acalmar sua mente, tenho certeza que pode – mas esse é um dos métodos. Não digo que seja o método, seria estúpido. Não existem estradas reais para Deus. Cada método é igualmente bom. O método zen é bom, o método da kundalini é o mesmo, raja ioga, todos eles irão guiá-lo se você for sincero e se o fizer, faça. Se você não fizer isso, bem, nenhum método ajudará”.

O mestre da Irina costumava dizer, segundo ela ainda na entrevista: “Deixe o homem em paz e ele encontrará Deus à sua maneira.” E prossegue Irina: “Não me diga que você tem que sentar nesta posição, você tem que fazer isso, tem que meditar dessa maneira. Apenas faça essa prática – para tentar encontrar esse lugar dentro de você. O resto virá sozinho. O objetivo principal é livrar-se de todas as técnicas”.

Ela diz que devemos deixar os dogmas e condicionamentos e querer envolver outros na sua ideia de alimentação, da vida etc. E diz que uma vez o mestre disse para ela ir para outro lugar (no processo espiritual) provavelmente refrescar o ser em geral: “perguntei a ele se deveria permanecer vegetariana. Ele disse: “Vou deixar isso para a sua discriminação”. E tudo o que eu pedisse a ele, dizia: “Vou deixar para você”. Portanto, toda a responsabilidade era totalmente minha”.

“Nós somos os árbitros de nosso destino. Veja, o Sufismo não é uma religião e nem uma filosofia. Eu gostaria de enfatizar isso. É um caminho para Deus. Essa é uma declaração importante. E onde quer que eles fossem, em cada país, eles assumiam a cultura daquele país, aquela parte da cultura que lhes convinha, é isso. Então, se eles forem para o Japão, eles usarão expressões japonesas e meditações japonesas, eu imagino, porque o princípio é deixar o homem sozinho e apenas lhe dar um pouco de orientação, e ele o encontrará sozinho, de qualquer maneira. Todas essas coisas não são muito importantes”.